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SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

31.08.16

QUATRO GERAÇÕES À MESMA MESA


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Chegaram à hora do almoço, tal-qual havíamos combinado antes.

A bisavó, 83 anos, loquaz e lúcida.

A avó, professora, terna e simples.

O neto, chauffeur do veículo, discreto e educado.

A bisneta, 6 anos, tagarela e viva.

 

Foi um almoço bem disposto, preparado pela Rosa.

Recordaram-se tempos passados.

Reviveram-se, com saudade, parentes já falecidos.

Vieram à tona os seus nomes

E alguns dos incidentes das suas vidas passadas.

 

Esclareceram-se as genealogias:

Quantos filhos tiveram os falecidos parentes A, B e C.

Por onde param os primos ainda vivos.

 

No final, antes da necessária abalada,

Ficou apalavrada um passeio de fim de semana

À simpática vila de Santiago do Cacém,

Berço comum de todos nós.

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29.08.16

O ANCIÃO E A GUERRA


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Sobe, pela manhã ensolarada, bengala na mão direita, em passo lento.

- Faz bem passear logo pela manhã! - lanço-lhe, atrevido e talvez pouco respeitoso.

Já são muitas as primaveras! - responde, continuando a lenta caminhada.

Fato azul celeste, fazenda italiana, óptimo corte.

Rosto claro, olhos azuis, prazenteiro no aspecto.

- Quantos anos tem? - pergunto, curioso.

Olha-me nos olhos:

- 93! - responde.E toda a sua postura parece exclamar: "Vê como estou bem!"

Andei na guerra de 43, lembra-se? Os portugueses e os espanhóis também pagaram a guerra!

Estende-me a mão e, com o polegar e o indicador, simula o dinheirinho.

Andava na tropa, sabe? Em Setúbal, cidade linda. Ai! que saudades tenho daquela terra!...

- Os submarinos alemães iam abastecer-se no Sado!

- Eu estava lá, na serra, a vigiar aquilo tudo!

- Em frente, havia uma ilha, de que não me lembro o nome.

Olha-me, com ar interrogador.

Na ocasião, também não me lembrei da nome da ilha; interiormente, lamentei o facto.

Pele do rosto muito clarinha, olhos azuis muito vivos, não me parece nada saloio.

Você de onde é que é? - pergunto.

Sou de Gondomar, conhece?

- Claro que conheço, é a terra dos ourives.

- Pois, é a terra do ouro - concorda.

Gondomar,  Lisboa, Setúbal, Mafra - 93 anos de vida.

Ainda robusto, bem disposto, falador, activo, elegante e simples.

Generoso fruto da boa cepa de antanho!

Que o bom Deus o conserve assim, lúcido e transparente.

Bem o merece!

28.08.16

APOLOGIA DA CORAGEM


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 A Rua Serpa Pinto, no centro da vila de Mafra, é íngreme e, por isso, de difícil subida.

Tem imenso movimento, mas quase exclusivamente de veículos automóveis.

São muito raros os transeuntes que a sobem a pé.

 

Ela é uma senhora muito idosa (92 anos de idade).

- Vinte e nove! - corrige, com um magnífico sorriso.

Sempre muito bem vestida, maquilhada, cabelo impecável.

Desloca-se pé ante pé, com uma lentidão enorme, curvada e arrimada a uma pequena bengala.

- Com muitas dores - confessa, sem perder a compostura.

 

Todos os dias esta velha senhora sai de sua casa

E, com uma regularidade impecável,

Sobe lentamente, pelo seu pé, arrimada à sua preciosa bengala,

A referida Rua de Serpa Pinto, em toda a sua extensão,

Com uma tremenda lentidão, paciente, corajosa e dolorosa.

 

Porque faz isto todos os dias? - pergunto-lhe, com curiosidade insensata.

- Porque tem de ser! - responde, com simplicidade desarmante.

 

A sageza simples dos seus noventa e dois anos de vida!..

 

Que sublime e corajosa vontade de viver!

Que excelente exemplo para todos nós!

 

25.08.16

O PALÁCIO DOS MARQUESES e OS VALORES UNIVERSAIS


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Era aqui que o nosso rei Dom João V pernoitava,

Aquando das suas idas de Lisboa a Mafra,

Para vistoriar o andamento das obras do Palácio/Convento/Basílica.

 

O abandono a que foi posteriormente votado;

As intempéries de muitos sucessivos anos;

Os roubos e as destruições da gentalha;

Transformaram o belíssimo edifício num autêntico montão de ruínas.

 

No entanto,

Deitaram-lhe oportunamente a mão;

Restauraram-no de uma ponta à outra;

E eis que ele surge, de novo, magnificente e belo,

Tal-qual o criaram os Marqueses de Ponte de Lima.

 

Hoje,

Não alberga a Nobreza de outrora,

Mas contém no seu interior

Museu dos Valores Universais,

Que eu ainda não visitei,

Porque estive no local demasiado cedo.

 

Contudo,

Passeei pelo jardim adjacente,

Simples, elegante e sóbrio,

Também dedicado aos mesmos Valores Universais.

 

Porém,

Espero visitar em breve o aludido museu,

Pois o passeio pelo jardim despertou-me a curiosidade.

 

Prometo:

Trazer aqui as minhas impressões da futura visita.

 

 

22.08.16

A GENUÍNA ALDEÃ


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 Decidimos passar o dia na típica Ericeira.

Desde que mandei a viatura automóvel para a reciclagem,

Deslocamo-nos nos transportes públicos.

Enganei-me no horário: chegámos à paragem com uma hora de avanço.

Fomos a pé até ao terminal de camionagem, para ocupar o tempo.

Ela chegou quase ao mesmo tempo:

Idosa, simpática, comunicativa, fresca e bem vestida.

De imediato, entabulámos uma divertida conversação.

Nascida e criada na Vila, tudo sabe, tudo conhece, tudo explica:

- Olhe, isto que vocês vêem, era tudo quintas: searas a perder de vista, esclarece.

E espontaneamente acrescenta, para melhor esclarecimento:

- Aqui, era a quinta de A; ali era a quinta de B; acolá era a quinta de C.

A mãe, adianta, trabalhava nas searas, de sol a sol, sem intervalos.

Ela, criança, andava permanentemente descalça, mas sem receio fosse do que fosse.

Um belo dia, resolveu descer a uma das quintas, a visitar a mãe, atarefada na ceifa.

Um cão quis morder-lhe.

Deu às de vila diogo, sem qualquer parança.

Caíu, esfolou as pernas - mas safou-se: não foi mordida.

Foi, naquela bela manhã de verão, uma conversa simpática e instrutiva.

O marido estava internado na Ericeira, por problemas de saúde.

Todos os dias está com ele: almoça lá pela Ericeira e permanece com ele todo o santo dia.

Narra os acontecimentos sem azedume, sem queixumes, sem lamúria.

A mágoa enorme que nela vive, guarda-a para ela própria, no mais fundo de si.

A sabedoria imensa, tranquila e sólida, dos nossos mais genuínos aldeões.

Não vamos com muita frequência à Ericeira.

Não a vimos mais.

Fica, no nosso espírito, a sua grata e saudável recordação.

 

 

 

21.08.16

SERÁ QUE ELE VÊ OS ESPÍRITOS?


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Já está quase nos noventa anos de idade.

É simples, educado, sensível e humilde.

Gosta de conversar comigo.

E eu adoro conversar com ele.

Bisneto de general do exército português.

Neto de coronel do mesmo exército.

Aposentado depois de uma longa vida activa

Em longínquos territórios de mares distantes.

Falamos da vida e da morte.

Diz não acreditar na vida depois da morte.

- Quando morrer, acaba-se tudo, garante.

Lembro-lhe os ditados da igreja católica:

Memento homo quia pulvis es

Et in pulverem reverteris.

Concorda comigo, não obstante a sua educação asiática.

- Mas olhe que existem espíritos! -  afirma-me, com evidente convicção.

- Mas andam por aí, não estão dentro de nós - acrescenta.

Olho-o, com surpresa e sem comentários.

- Sabias que ele vê os espíritos? - diz-me a minha mulher,

Quando lhe contei a conversa que mantive com este meu velho Amigo.

Quando regressar a Oeiras, se o encontrar de novo,

Talvez tenha coragem para lhe perguntar

Se, na realidade, ele vê os espíritos.

10.08.16

PORTUGAL INCENDIADO


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I

Parte substancial da População do interior do País

Emigrou.:

Uns para os estrangeiro.

Outros para o litoral.

Os campos ficaram praticamente desertos.

II

Ao abandono das terras

Seguiu-se a quase extinção da Guarda Florestal

Com o consequente abandono das respectivas casas,

E a quase eliminação dos Cantoneiros.

III

O mato deixou de ser utilizado na lavoura;

O matagal proliferou quase por toda a parte;

Os eucaliptais vieram ocupar parte substantiva dos terrenos

IV

O clima alterou-se;

As terras ficaram mais secas.

V

Nos inícios de cada Agosto,

Os territórios antes abandonadas enchem-se repentinamente de gente:

Uns abalam das cidades para a província, no gozo de férias;

Outros regressam ao País, vindos de fora.

VI

Estranhamente, é nesta época do ano

Que os incêndios, às centenas, irrompem pelo País fora.

Em regra, as ignições ocorrem durante a noite,

Muitas vezes em zonas de difícil acesso.

VII

Povo chora;

A classe política lamenta-se.

Mas, na realidade, com as primeiras chuvas,

Os governantes calam-se,

E, na prática, pouco ou nada se faz para remediar a situação.

 

É pena!

07.08.16

A NOITE DA CIGARRA


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I

Recordo com saudade a fábula da Cigarra e a Formiga.

A Cigarra cantadeira, fútil, alegre, bem disposta...

A Formiga trabalhadora, persistente, poupadinha...

Comprei até uma maravilhosa edição das Fábulas de La Fontaine,

Para oferecer aos Netos...

 

 

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II

No entanto, revivo também aqui uma outra recordação,

Mais recente, mais viva, mais sensível.

Que partilhei há anos com as minhas duas Netas, Raquel e Rita,

Pelo menos em várias noites de alegre folia.

 

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III

Trata-se da "Noite da Cigarra".

Espectáculo estival, vibrante e divertido,

Patrocinado anualmente pela Câmara Municipal de Mafra.

 

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IV

No amplo terreiro frente ao Museu Municipal, em Mafra,

Em enorme palco aí implantado,

Actuavam, noite dentro, cantadores os mais diversos,

Bandas as mais divertidas,

Comediantes os mais hilariantes,

Para satisfação e gáudio dos espectadores,

Crianças, jovens e adultos,

Sentados nas cadeiras de madeira aí predispostas,

Ou de pé no amplíssimo espaço circundante.

 

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V

No entanto ... não há bela sem senão.

Por razões que desconheço -  ou até sem qualquer razão -,

O Município cancelou o espectáculo... 

 

 

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VI

As noites de verão nesta parte ocidental da vila de Mafra,

Regressaram assim, inesperadamente,

À velha quietude saloia,

Para mágoa sentida de todos os que aqui vivem.

 

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QUE TRISTEZA!...

04.08.16

A ANTIGA BURGUESIA


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I

Impecavelmente vestida, subia e descia, sempre a pé, a Rua Serpa Pinto, em Mafra.

Apreciava parar, durante o percurso, para conversar connosco.

Fluente e erudita, criticava alguns dos costumes modernos;

Insurgia-se contra os atropelos à higiene pública de alguns conterrâneos;

Entendia que a mocidade deveria ser mais educada.

 

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II

Idosa, discreta e sóbria, nunca falava dos seus achaques,

Embora fosse de admitir que, atendendo à sua avançada idade,

Teria muito provavelmente problemas de saúde.

 

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III

Adorava a sua quinta, de que falava amiúde.

Detestava que arrancassem as árvores, de que tanto gostava.

 

Não era apreciadora das modernices actuais.

 

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IV

Era uma senhora com sólidos valores cívicos, morais e religiosos,

Que lhe garantiam uma postura de rara elevação, consciente e responsável.

 

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V

Passeando o caniche pela Vila, deparei inesperadamente com a sua fotografia,

Exposta à porta de entrada do jardim da casa mortuária.

 

Foi um choque, pois ainda no dia anterior tivéramos com ela uma longa e frutuosa conversa,

Nas proximidades das esplanadas do centro da Vila. 

 

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VI

Faleceu inesperadamente, aos 86 anos de idade.

Tão discretamente como sempre vivera.

 

A Vila ficou seguramente mais pobre.

 

 

03.08.16

A PATA NA POÇA!


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 I

Nos anos que se sucederam ao 25 de Abril de 1974,

Os Governos - sem qualquer excepção -

Apostaram na aquisição de habitação própria por parte dos cidadãos.

Dizia-se, na altura, que a intenção oficial era  a de afastar definitivamente

A ameaça de implantação em Portugal de um regime comunista.

 

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II

A carência de fogos para arrendamento a preços suportáveis;

A abertura dos Bancos aos empréstimos para aquisição de habitação própria;

Os incentivos financeiros generosamente concedidos pelo Estado;

Mais tarde, a continuada descida das taxas de juro

E a monumental entrada no País de dinheiro fresco vindo sobretudo da Alemanha

- Fez com que subissem em espiral os números dos empréstimos para compra de casa.

 

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III

Em rápida síntese:

Os cidadãos endividaram-se para comprar casa própria.

A maioria continua endividada,

Muitos pagando penosamente a prestação mensal devida pelo empréstimo,

E outros deixando de a pagar, por falta de recursos.

 

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 IV

Ora, neste dramático panorama - que a população bem conhece -,

O Governo delibera mexer no Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI),

Elevando discricionariamente alguns dos pressupostos da sua fixação...

 

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V

Mereciam autênticas "orelhas de burro"

As "luminárias" que tiveram esta desastrada ideia!

 

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VI

Neste particular - salvo o devido respeito -

O Governo meteu a pata na poça.

E, com este comportamento,

Desiludiu seguramente muitos dos seus eleitores.

 

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