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SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

29.11.16

NO SHOPING


simplesmente...

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Festa de Natal às portas: idas ao shoping.

No Corte Inglês, azáfama natalícia.

Pequeno almoço dobrado, visita aos diversos pisos, algumas compras.

No Centro Comercial das Amoreiras, almoço sóbrio.

Os olhos em repouso passeio pelos transeuntes:

. O banqueiro aposentado, com o seu inevitável guarda-costas;

. O ex-ministro, envolto no seu amplo cobertor de boa lã;

. O comentador e jornalista, reformado e aparentemente distraído;

. O causídico ilustre, ex-aluno e perito em causas penais.

Enfim, um fartote de gente conhecida.

E, também, os caminhantes anónimos:

De todas as idades, de ambos os sexos, de muitas cores.

Acalorados, friorentos, altos e baixos, gordos e magros, novos e velhos.

Enfim,  um regalo para esta vista já semi-saloia.

Regresso tempestivo ao sossego de Mafra, no autocarro da empresa rodoviária.

Por entre jovens estudantes universitários, no regresso aos respectivos lares.

A repetir, daqui a mais uns dias.

Sobretudo, para melhor ver as iluminações de Natal.

13.11.16

EFEMÉRIDES


simplesmente...

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"Lindo dog! Estamos velhos, não é? E sós. Na velhice é assim. Morrem os amigos próximos..."

Estou sentado no Centro Cívico de Carnaxide, a uma mesa das várias esplanadas por ali espalhadas.

O caniche - que me acompanhou estrada acima - repousa, tranquilo, a meus pés.

Preparo-me para dar uma vista de olhos pelo jornal, recém-comprado na livraria ali ao lado.

Mas a voz continua a falar para o animal, nas minhas costas.

A páginas tantas, levanto os olhos do papel e olho para quem assim tão insistentemente interpela o meu animal.

É um cavalheiro idoso, bem vestido, arrimado a um cajado, com as páginas de um jornal a quererem soltar-se-lhe do casaco.

Encarei-o e, continuando sentado, ouvi com atenção todo o seu animado discurso.

Foi engenheiro de máquinas, percorreu o mundo inteiro, fala várias línguas, tem inventos engenhosos por concretizar:

"Um dia destes chamo cá as televisões e revelo-lhes tudo isto." - diz.

"O senhor engenheiro podia vender as suas ideias aos chineses: eles estão cheios de dinheiro"

"Pois. Mas antes tenho de fazer um protótipo" - esclarece.

Fala-me longamente das terras longínquas por onde andou; do que por lá fez; do que por lá ensinou e aprendeu.

"Uma vida bem cheia" - digo-lhe.

"Pois foi, mas agora estou nisto - esclarece. - O cérebro está óptimo, mas a carroçaria está uma desgraça!.

Levanto-me e acompanho-o. 

Move-se com muita dificuldade.

Sai para o almoço, que já se faz tarde: "Moro aqui a dois passos", informa, como quem diz "não se preocupe, 

que eu chego lá pelo meu pé".

Desço com a caniche até casa da filha: as Netas já estavam a acabar de almoçar.

Passou tão depressa esta manhâ!...

 

 

08.11.16

Entre o ser RICO efectivo e o PARECER ser rico


simplesmente...

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Alguém disse algures o seguinte: O importante não é ser rico, é parecê-lo”.

 

Ora, observo que alguns dos meus conterrâneos pretendem levar o preceito à letra.

 

Sento-me nas esplanadas da Vila, frente à esplêndida Basílica de Mafra.

A beber o meu habitual cafézito e a observar o que se passa ao meu redor.

 

Pelas ruas, em animado corropio, circulam automóveis.

Quase tudo de boas marcas: mercedes, bmws, audis, porches e jaguares.

 

Em regra, conduzidos por senhoras e cavalheiros ainda relativamente novos.

 

Estacionam por aqui e por ali, em animada concorrência.

 

Não é frequente, porém, ver sair daqueles esplêndidos carrões cavalheiros ou damas com roupas de altas marcas, com sapatos de óptima

qualidade, com “make-up”impecável, enfim, com “estilo” a condizer com as viaturas automóveis de alta qualidade que orgulhosamente exibem.

 

Enfim, salvo o respeito devido, parece-me que, por vezes, “não bate a bota com a perdigota”.

 

Por outras palavras:

Digam o que disserem, não é nada fácil parecer ser “rico”…

 

 

 

 

 

 

06.11.16

NOS TRATAMENTOS TERMAIS...


simplesmente...

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O hotel não é barato, mas tem qualidade.

Não obstante estarmos fora da época alta, está cheio.

No amplo restaurante, os hóspedes, sentados em lugares pré-marcados, sentem-se confortáveis.

A comida é de boa qualidade e bem confeccionada.

Os empregados são simpáticos, atenciosos e sempre com um sorriso nos lábios.

 

Converso com os meus vizinhos da mesa mais próxima.

São educados, cordiais e bem falantes.

Com o decurso dos dias, vão desfiando histórias de vida.

Vieram das ex-colónias, fugindo às batalhas intestinas.

Recomeçaram por cá as suas vidas.

Com bom sucesso nos seus empreendimentos.

Filhos criados, bem na vida, ocupam-se dos netos.

Fica-lhes a saudade da África distante.

 

No hall do hotel, cruzo-me com outro casal, também em tratamentos termais.

Vieram de baixo.

Subiram a pulso, com muito trabalho e pouco descanso.

Agora estão bem na vida: boa casa, bons carros, boa conta bancária.

Conservam, no entanto, a simplicidade, a lhaneza e a humildade originárias.

Também com os filhos já criados, mostram, com justificado orgulho, as fotos dos netos.

Crianças bonitas, saudáveis, prazeirosas.

"Tem de ir lá a casa almoçar connosco!", afirmam, com evidente sinceridade na voz.

Regressámos antes deles.

"Que pena, disseram. "Se ficassem mais uns dias, regressávamos todos juntos".

 

Também veio de África, com o marido e os filhos.

Viúva, ocupa agora o tempo no negócio que criou para os lados de Almada.

Mantém, em todas as circunstâncias, uma serenidade e um à-vontade impecáveis.

Com uma calma surpreendente, relata os episódios vividos em Moçambique.

Nota-se-lhe, na voz compassada e firme, a saudade dos territórios que, a contragosto, teve de abandonar.

 

Esteve nas guerras de África, em cumprimento do serviço militar obrigatório.

Valeu-lhe, na circunstância, todo o conhecimento obtido na terra portuguesa de origem:

O pastoreio do gado familiar, a cultura das hortas, o amanho dos campos.

Escolhido para gerir a messe dos sargentos, cedo iniciou negócios com os indígenas das aldeias vizinhas.

E, em lugar das insípidas rações de combate, os soldados passaram a comer, com gosto, estupendos churrascos.

Chegou a notícia aos ouvidos do Comandante, que logo o nomeou para gerir a messe dos oficiais.

Com competências alargadas e apesar de ser soldado raso, passou a ser conhecido por "2.º comandante".

Conta-me tudo isto e muito mais nos longos e saudáveis passeios a pé que damos pelos arredores.

 

Enfim:

Solidariedade e convívio entre pessoas unidas pelo mesmo objectivo:

Tratamento de mazelas várias através das águas termais.

 

Alguns dias bem passados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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05.11.16

EM TRATAMENTOS TERMAIS...


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Alentejano, do Alentejo profundo.

Baixote e robusto. 74 anos de idade.

Encetamos animada conversa durante os tratamentos termais,

Imersos até ao pescoço na água quente da piscina,

Para distracção, alegria e relaxamento das Técnicas presentes.

Lavrador de velha cepa, ocupa o tempo nas vinhas dos seus terrenos,

No trato dos quatrocentos animais que por lá circulam 

E em tudo o mais que uma autêntica "fábrica ao ar livre" dele exige.

"O Dr. tem de lá ir ver aquilo!" - afirma, com sinceridade.

Continuamos a conversar na sala de repouso, depois dos tratamentos.

Na penumbra ascética e silenciosa, quase eclesial, do recinto,

Conta-me, quase chorando, a tremenda mágoa que o submerge

E que, em público, tenta disfarçar com gracejos, ditos e risadas.

Num hospital da grande cidade, faleceu-lhe o único filho.

Com a idade de 22 anos e com um tumor no pescoço.

Dissera-lhe, durante anteriores conversas:

"Venda os animais, desfaça-se deles! Está na hora de repousar."

"Ah! não! - atalha, como quem reage a uma rústica barbaridade.

"As minhas queridas vaquinhas..." - acrescenta, com um tremor na voz.

Compreendi depois: É a família que lhe resta...

"Ele tem lá uma filha que o ajuda" - esclarece-me a Terapeuta,

Durante a massagem vichy a que estou submetido.

"Que em nada substitui o filho pré-falecido" - penso, para mim mesmo.

Há mágoas que não se contam...

Excepto, excepcionalmente, numa sala semi-deserta,

A alguém que as ouça, sem comentar...

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

01.11.16

NAS TERMAS...


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Mãe solteira, três irmãos, todos de pais diferentes.

Vida miserável: resineiro sem salário.

 

Abalou para o Brasil, quase sem dinheiro no bolso.

Começou por lá a vender cigarros, charutos e coisas quejandas.

Sempre de bicicleta.

"Os portugueses compravam-me mercadoria, sabe porquê?...

Porque tinham pena de mim!"  - confessa, sem vergonha.

 

Foi subindo a pouco e pouco.

Mudando de estado para estado.

 

Acabou na capital, Brasília.

Por lá iniciou a sua actividade comercial, por conta própria.

 

Trabalhou imenso.

Casou com uma moça portuguesa.

Foi muito feliz.

Tem filhos e netos.

 

Vem muitas vezes a Portugal.

Matar saudades.

 

É muito culto, sem ter grande instrução oficial.

Fala com correcção, com sotaque brasileiro.

 

Tem 90 anos de idade.

Mas parece mais novo.

 

Disse de mim:

"É uma pessoa muito culta; sabe ouvir".

 

Foi para mim um prazer muito grande ouvi-lo,

Na sua linguagem viva, colorida, multifacetada.

Nas proximidades das Termas que os Romanos usaram

E onde o nosso primeiro Monarca se terá curado das suas mazelas.