Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

03.01.18

CAPÍTULO III - REGRESSO a LISBOA - TRABALHADOR e ESTUDANTE


simplesmente...

097.jpg

 

III

REGRESSO a LISBOA –TRABALHADOR e

ESTUDANTE

 

   Fora praticamente criado na populosa e quase provinciana freguesia Y, em Lisboa, onde os seus pais ainda habitavam.

Por isso, a oportuna transferência para a agência da CGD dessa localidade representou, a muitos títulos, o regresso aos adorados locais da sua tranquila juventude, a saudável retoma das relações com amigos de longa data e, sobretudo, a possibilidade de frequentar, pontual e assiduamente, as aulas pós-laborais da Faculdade de Direito.

 Levantou-se cedo, como era de há muito seu hábito; a mãe, em cuja casa pernoitou, serviu-lhe o pequeno-almoço; desceu sossegadamente a rua fronteira ao cemitério local e, atravessando a estrada principal, tocou à campainha da porta de entrada da agência, ainda fechada ao público.

 O gerente, em regra o primeiro a chegar e quase sempre o último a sair – como teve oportunidade de verificar mais tarde – recebeu-o com a amabilidade e os bons modos próprios da ocasião.

Porque já tinha grada experiência das tarefas próprias das agências locais, ficou desde logo ao balcão, no atendimento aos numerosíssimos clientes que, mal a porta da rua foi aberta, imediatamente lotaram o espaço disponível, o qual – refira-se em abono da verdade – era, à data, muito exíguo para tanta gente.

 Ali esteve desde o ano de 1974 até ao ano de 1982, quer exercendo funções na secretaria, quer assumindo o cargo de tesoureiro – na sequência de um assalto sangrento à agência, na manhã do dia 25 de Novembro de 1975, de que resultaram vários feridos, um baleado nas pernas, outro baleado no peito e um terceiro, exactamente o único tesoureiro do reduzido quadro de pessoal, agredido com coronhadas na cabeça.

Todo o pessoal então ao serviço se portou bravamente, por forma tal  que os criminosos não levaram com eles um único tostão.

Por isso, todos os empregados daquela agència foram formalmente louvados por despacho da administração, publicado em “ordem de serviço”.

Quanto a ele, desempenhou o cargo de tesoureiro com elevadíssimo brio e exemplar competência, por forma tal, que, em mais de cinco anos de diário e consecutivo exercício da função, apenas teve uma falha de cem escudos, devida à circunstância de, ao efectuar pagamentos aos funcionários públicos com notas novíssimas, ter entregado a um dos clientes duas notas de cem escudos em lugar de uma só, o que se deveu ao facto de estarem ambas as notas, desde a sua origem, de tal maneira tão bem coladas uma à outra, que, no acto do pagamento, não se apercebeu do erro.

O jovem trabalhador-estudante continuou pacientemente o seu longo percurso universitário, comparecendo a todas as aulas na Faculdade de Direito. com pontualidade e assiduidade, sempre no horário pós-laboral – das 19H30 às 23H30 –, tendo terminado, no ano de 1979, o seu curso de Direito com a classificação final de “Bom”, raridade naquela exigente Universidade pública,

A licenciatura não teve, porém, a mínima repercussão no seu local de trabalho.

Os responsáveis da agência deliberaram, aquando do “roulement”, colocá-lo em frente ao balcão, sentado à máquina de escrever, a dactilografar todos os manuscritos elaborados pela gerência, pelos chefes de sector e também por alguns outros empregados.

A páginas tantas, o jovem licenciado levantou-se da sua pequena mesa de trabalho de dactilografia e entrou no gabinete do gerente local:

         – Senhor C…., você desculpe! Eu estou para ali a dactilografar os seus textos e os dos colegas, mas encontro neles muitas incorrecções. Você permite-me que eu os corrija antes de os dactilografar? – disse, serenamente e sem qualquer receio.

         – Pode, pode, claro! – respondeu-lhe o gerente que, colhido de surpresa, não encontrou forma de “dar volta ao texto”.

Regressado ao seu modesto lugar, o jovem licenciado passou a examinar cuidadosamente todas as minutas que lhe eram apresentadas e, antes de as dactilografar, emendava os erros ortográficos e os de pontuação, substituía as palavras inadequadas e, nos casos de textos sem o devido sentido, alterava-os.

Fazia-o com alguma íntima satisfação – anote-se em abono da verdade –, mas, na realidade, os referidos textos, depois de corrigidos, até revelavam alguma elegância.

Porém, nas suas costas – contaram-lhe os amigos –, os escribas alvo das correcções choravam baba e ranho: “Quem é que ele pensa que é?... Que é isto de alterar o que eu escrevi?... Isto assim não pode continuar!...” Mas nunca nenhum deles afirmou que algum dos seus textos originais, depois de alterado pelo incorrigível empregado licenciado, tinha ficado pior. 

Vieram novos “roulements” e, no último, os responsáveis da agência deliberaram colocar o jovem licenciado por detrás do balcão, logo à entrada da agência, a distribuir as fichas metálicas a quem chegava – para assim estabelecer a ordem de chegada e a de atendimento –, a receber as cadernetas de Caixa Económica Portuguesa carecidas de actualização e a emitir os correspondentes recibos de entrega.

Aceitou as novas incumbências sem qualquer protesto e aproveitou a ocasião para conversar tranquilamente com os muitos amigos e alguns vizinhos que, durante a longa espera, dele se aproximavam.

Ora, certa tarde de um excelente fim-de-semana, um colega e amigo –  também advogado e vizinho – informou-o, estando ambos sentados num dos cafés da localidade onde residiam, que a empresa acabara de abrir concurso interno para o preenchimento de mais de uma dezena de vagas de juristas.

Agradeceu a informação e apresentou por escrito a sua candidatura, ficando a aguardar pacientemente ser chamado a prestar provas escritas.

No entretanto, continuou a fazer a sua vida normal: trabalhando na aludida agência da Caixa durante o dia, dando aulas práticas de Direito Administrativo na Faculdade durante parte da noite e continuando o seu estágio de Advocacia.

Uma bela manhã, logo à entrada ao serviço da agência, o prestável contínuo estranhou a sua presença:

         – O senhor Dr. está hoje aqui?!... – perguntou, com evidente espanto.

         – Estou. Que se passa?... – retorquiu, intrigado.

         – É que veio uma carta para a gerência, mandando que você comparecesse hoje no Centro de Formação, para prestar provas para o lugar de técnico – esclareceu.

         – Ninguém me disse nada! – exclamou, inquieto – Onde é que está essa carta? – continuou, sentindo começar a ferver-lhe o sangue nas veias.

         – Mandaram-me arquivá-la. Está no arquivo. Vou já lá buscá-la – e, acto contínuo, desceu à cave e trouxe de lá a carta.

Observada a carta, vestiu o casaco e, sem dar cavaco fosse a quem fosse, abalou porta fora e meteu-se num táxi em direcção ao centro da cidade.

No edifício onde as provas escritas iriam ser prestadas já estavam presentes todos os outros candidatos, entre os quais alguns vindos expressamente da Província…

Fez as três provas escritas e, tendo obtido excelentes resultados, compareceu à entrevista final no Largo do Calhariz, e aí foi aprovado para iniciar o respectivo estágio, na Direcção dos Assuntos Jurídicos.

Concluiu o estágio com sucesso e, na entrevista final, foi-lhe sugerido que aceitasse integrar o quadro de consultores jurídicos existente na sede, mas, talvez ainda traumatizado pela amarga experiência do “tarrafal” da Rua do Ouro, optou pela colocação no Centro de Decisão da região Z, cuja vaga de assessor jurídico fora recentemente criada.

Não foi, porém,  inteiramente feliz na  aludida opção…

 

***

Conrtinua no próximo post