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SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

30.04.20

TEMPO TRISTEMENTE HISTÓRICO


simplesmente...

 

Longos discursos, amplas explicações, algumas controvérsias.

Vai terminar proximamente o "estado de emergência".

Substituído pela "estado de calamidade".

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Mudança de nomes, mas,  por ora, poucas alterações.

Teme-se, com notório motivo, que esta "abertura" abra caminho a uma segunda vaga.

O novo vírus ainda não está "domado".

Ainda parece faltar a "medicação" ajustada e eficaz, embora, um pouco por todo o lado, a "esperança" renasça.

Espera-se com alguma justificada ansiedade que apareça uma "vacina" definitivamente salvadora.

Que resista também a todas as mutações do virulento vírus.

Choram-se os milhares de mortos; consolam-se os muitos milhares de pessoas em amargurados lutos; louvam-se os heróis que, nos estabelecimentos de saúde, enfrentam corajosamente o perigo.

Tudo isto vai figurar seguramente na História.

Estamos, pois, a viver tempos tristemente históricos.

 

26.04.20

A BIZARRA POSTURA DOS DEPUTADOS


simplesmente...

 

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A Ordem dos Médicos Portugueses recomenda o uso de máscaras para combater a pandemia, afirmando mesmo que se trata de uma “medida essencial para todos nós”.

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças também recomenda o uso de máscaras para evitar a propagação do novo coronavírus.

A própria Direcção Geral de Saúde recomenda o uso de máscaras sociais, sobretudo em espaços fechados.


Há tempos, um Técnico Chinês classificou de “erro grave” a aparente relutância do Ocidente em usar máscaras para combater o coronavírus.

A esta luz, parece-me no mínimo inexplicável a deliberação dos Srs. Deputados de, ostensivamente, recusarem o uso de máscaras na sessão solene de Comemoração do 25 de Abril.

Aliás, numa recente entrevista à TSF, o Sr. Presidente da Assembleia da República sustentou até que “não pode haver mascarados no 25 de Abril porque também não têm sido usadas máscaras nas restantes sessões” (sic).

Esta bizarra postura de Sua Excelência lembra, salvo o devido respeito, uma outra que, há anos, proferiu sobre o segredo de justiça…

Ora, quer Entidades Públicas, quer Entidades Privadas, estão a gastar rios de dinheiro na aquisição das ditas máscaras…

Não pode ser, seguramente, dinheiro deitado à rua.

Salvo o devido respeito – que é muito -, mal andam os Senhores Deputados da nossa Assembleia da República  em recusar ostensivamente o uso de máscaras em espaços fechados.

Não é só a saúde deles que está em jogo: é, ao invés, a saúde e a vida de todos nós.

Com a saúde e com a vida das pessoas  … não se brinca.

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24.04.20

A INEFÁVEL LEONTINA


simplesmente...

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A INEFÁVEL LEONTINA

O pai chamava-lhe a sua “senhora de fátima”: era meiga, generosa, solidária, adorava os Pais e amava os Irmãos.

Era sete anos mais velha do que eu: a sua serena beleza sempre me encantou.

Trabalhou alguns anos no Parque Mayer, em Lisboa, no Teatro ABC.

Levava-nos, a mim e ao meu irmão Jacinto, ambos crianças de escola primária, a ver as “revistas” que por lá se apresentavam: ficávamos sentados próximo dos bastidores, longe dos restantes espectadores, ambos de boca aberta com o esplendor dos cenários, deslumbrados com os jogos de luzes, fascinados com as danças e cantares.

Casada com o cordial Joaquim, foi viver com ele para a casa da sogra, próxima do Jardim do Príncipe Real, em pleno Bairro Alto.

Nasceu-lhes um menino, a quem puseram o nome de Francisco, em homenagem ao Avô Paterno.

Escrevia-me regularmente para o Colégio das Missões Franciscanas, em Braga, para onde fui enviado depois de concluir a instrução primária: em cada carta, ia sempre uma nota de vinte escudos, que espontaneamente me dava, sem que alguma vez eu lhe tivesse pedido fosse o que fosse.

Tenho um pena imensa de não ter conservado, intactas, as numerosas cartas que, naqueles cinco anos de internato, me escreveu.

Nas férias grandes, ia amiúde visitá-la e almoçar com eles.

Nunca regressava de lá sem uma qualquer prenda: numa ocasião, virou-se para o marido e perguntou-lhe: “Quim, posso dar esta máquina fotográfica ao meu irmão?”

“Podes”, respondeu ele prontamente.

Doutra vez, ofereceu-me um relógio de pulso.

 Ao casar, convidei-a para minha Madrinha de casamento: aceitou sem hesitar.

Aperfeiçoou-se na arte dos tapetes de arraiolos e era daí que lhe vinha o sustento.

Morreu-lhe cedo o Marido, de doença prolongada.

Continuou a trabalhar heroicamente para educar o único Filho.

Visitava muito regularmente os meus Pais, de quem nunca se separou.

Foi visitar-nos à nossa casa de Benfica, poucos dias antes de falecer.

Ainda hoje me dói o peito por, naquela altura, não ter percebido quão doente ela estava.

Faleceu numa Clínica de Lisboa, aos 3 dias de Maio de 1970, com pouco mais de trinta anos de idade.

Deixou em todos nós, Pais e Irmãos, uma saudade imensa.

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23.04.20

PASSEIO HIGIÉNICO


simplesmente...

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PASSEIO HIGIÉNICO

Uma sumária análise na despensa e no frigorífico foi esclarecedora: acabaram-se os ovos e os iogurtes, esgotou-se a água, a manteiga está por um fio, não há vinho…

Levanto-me e observo, através dos vidros da porta do gabinete, o estado do tempo: o céu está coberto de nuvens, um vento envergonhado balouça as canas e as folhas das figueiras da horta vizinha, a passarada irreverente e renovada ora se lança em rápidos voos pelos ares limpos, ora debica no restolho húmido os pedaços de pão e de batata cozida que a Rosa para lá projectou.

Do guarda-fato do meu quarto de dormir tiro o kispo próprio para a chuva, visto-o, pego nos documentos e nas chaves do automóvel e declaro-me pronto para o indispensável passeio higiénico.

Deixo a Rosa próximo da loja da Amélia e da pastelaria Polo Norte e estaciono no parque deserto, frente ao portão de entrada do Jardim do Cerco, que continua fechado ao público.

Passeio lentamente por ali, observando as árvores cobertas de folhas e flores, os passarinhos traquinas que se divertem, as plantas semi-adormecidas que tranquilamente se vão abrindo
na manhã que tarda a despontar.

Alguns jovens soldados andam, lá e cá, em inesperada azáfama; uma pequena fila de gente espera a vez de ser atendida, à porta da agência da CGD; uma já relativamente extensa fila indiana aguarda, com aparente paciência, que os CTT permitam a entrada na loja respectiva; alguns (poucos) cidadãos deambulam, uns mascarados, outros de cara descoberta, todos aparentemente indiferentes ao novo vírus, que, pelos vistos, felizmente nada quer com os ares saudáveis de Mafra.

Paro, olho para o amplo terreiro do Palácio – àquela hora deserto – e parece-me ver um vulto conhecido a percorrer sossegadamente o espaço livre: era a Rosa que, não querendo esperar pela boleia automóvel, resolveu vir ter comigo, carregando nos braços os sacos com as compras acabadas de fazer.

- Podias ter telefonado! Eu ia ter contigo! Escusavas de vir para aqui tão carregada.

Que não, que não foi preciso: - Vamos mas é pôr tudo isto na mala do carro!, sugeriu.

Demos os dois mais umas voltas pela alameda sobranceira ao jardim, conversando tranquilamente, quer sobre quem usa e quem não usa a máscara, quer sobre quem já telefonou, quer sobre quem, no entretanto, mandou mensagens, fotos, desenhos e vídeos pelo whatsapp.

Foi uma curta digressão, que o “confinamento” não permite percorrer longas distâncias.

Regressados a casa, ela continuou as lides domésticas sem, no entanto, deixar de ter o carinhoso cuidado de me trazer, num pratinho de loiça, metade de uma excelente meloa, bem madurinha e acabada de comprar na Loja da Amélia.

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21.04.20

A GRACIOSA OLIVIA


simplesmente...

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"O meu António há-de escrever a história da minha vida" - dizia, vezes sem conta.

Teve, na realidade, uma vida muito rica.

Nasceu na vila (hoje cidade) de Santiago do Cacém.

Era, pois, uma autêntica menina da Vila, objecto de uma educação muito cuidada: sabia costurar, bordar, tratar impecavelmente da roupa, cozinhar na perfeição.

Francisco, jovem e galante, descobriu-a, solteira e muito jovem, ainda na casa dos Pais dela.

Namoraram o tempo que bem entenderam, às vezes até tarde: "Quem é de casa, fique em casa, quem não é de casa, vá-se embora" - gritava o Pai dela, do quarto onde já quase dormia, para que a Filha se fosse deitar.

Casaram catolicamente na Igreja Matriz de Santiago do Cacém: foi um casamento para toda a vida.

Veio para Lisboa ainda nova e trouxe os Filhos consigo.

Por cá, nasceram-lhe mais cinco filhos.

Tratou-os a todos com muito carinho.

Era pessoa muito cordata, muito educada, muito conciliadora, muito amiga do seu amigo.

Nunca a vi levantar a voz.

Viu morrer três dos seus Filhos: a Lúcia (ainda bébé), o José Maria e a Leontina.

"Ai, António, a minha Júlia!" - lamentava-se, quando eu era miúdo.

Quanto ao mais, guardava religioso silêncio.

As dores profundas são silenciosas - digo-o também eu, por intensa experiência própria.

Francisco, o marido, faleceu antes dela, vítima de doença, no Hospital dos Capuchos, em Lisboa.

A graciosa Olívia, minha querida Mãe, faleceu alguns anos depois, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, vítima de doença.

Nada levou com ela, claro.

Mas deixou uma saudade muito grande, quase do tamanho do Universo.

Obrigado, minha Mãe, por seu teu Filho.

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20.04.20

TODOS OS DIAS SÃO DOMINGO


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Renovado o confinamento obrigatório, prosseguem os dias o seu curso normal neste peculiar entediamento, nesta inexplicável lassidão, nesta quase inútil esperança.

Saudades do útil ginásio e da peculiar “personal trainer, polaca, bonita e competente.

A Administração do Centro (People Family de Mafra) deliberou encerrá-lo e pronta e espontaneamente suspender-me o débito da prestação mensal: revelaram neste comportamento competência e honestidade.

Saudades da praia da Ericeira, aqui tão perto e tão longe, a poucos minutos de caminho, pela autoestrada que de Mafra desemboca directamente na Localidade.

Saudades do Jardim do Cerco (agora de portas fechadas), das suas árvores centenárias; das plantas e flores dos jardins, ciclicamente renovadas; das aves que, ora pululam nos arvoredos, ora se desdobram em dolentes cantorias nas gaiolas autárquicas; das frondosas alamedas, sempre impecavelmente limpas.
Saudades do Parque Municipal (também encerrado) e dos “passeios higiénicos”, ora ao redor dos parques desportivos, ora sob os velhos sobreiros, ali plantados pelos súbditos dos Marqueses de Ponte de Lima, em cujo palácio (hoje Universidade dos Valores) o nosso Rei Dom João V e a sua Corte se albergavam quando, vindos de Lisboa até Mafra, decidiam vistoriar as obras do Palácio/Basílica/Convento.

Saudades das inebriantes esplanadas que, desde a Praça da República, se espalham por toda a avenida principal, onde me sentava a ler tranquilamente o jornal diário.

À falta de melhor, transferi as aulas no ginásio e os passeios na praia e nos parques e jardins para uma medíocre caminhada, ora na varanda sul da minha casa de habitação, ora pelo pequeno jardim implantado na área a norte do monárquico edifício, o qual, por não ter porta de entrada, não viu vedado o acesso aos passeantes.

Quanto ao mais, vou-me contentando com algumas passadas na passadeira eléctrica que, há alguns anos, comprei na loja de artigos ortopédicos aqui da esquina, e com algumas pedaladas na bicicleta estática que na mesma loja adquiri.

E, quando o inevitável fastio mais não consente, ligo o computador, acedo à internet e, num site de “qui gong”, faço os exercícios que um atleta chinês me disponibiliza.

Quanto ao mais, quando me pedem, ajudo o Neto Miguel nos seus trabalhos escolares e a Filha Leonor nos seus trabalhos jurídicos.

Entretenho-me com a Rosa num ou noutro filme da televisão, que isto dos noticiários já me está a dar em doido.

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17.04.20

O ERUDITO FRANCISCO


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O ERUDITO FRANCISCO

Cumpriu o serviço militar nos anos 20 do século passado: presumo que terá sido aí, em Lisboa, que pela primeira vez fumou um cigarro e se habituou a beber.

Tendo concluído o 4.º ano de escolaridade, era, de  entre os restantes soldados (a maioria deles analfabetos), um militar de certo modo privilegiado, pois atingiu a patente de sargento.

Era, além disso e sobretudo, um ávido leitor que não resistia a ler imediatamente todo o papel escrito que lhe caísse nas mãos.

Lembro-me, aliás, que, nos tempos em que os romances se vendiam em fascículos, todas as semanas comprava o fascículo acabado de imprimir.

Lidos todos eles, mandava encadernar os livros e, desta forma, conseguiu reunir uma pequena biblioteca pessoal.

Recordo-me de em casa haver sempre jornais por todo o lado, pois, além de adquirir o periódico matinal, também comprava os vespertinos.

Teve lugares de alguma responsabilidade na sua área de trabalho (a construção civil), tendo sido o encarregado geral em obras realizadas no aeroporto de São Jacinto, em Aveiro.

Perdia-se por saias: as mulheres e algumas bebedeiras impediram que, nesta vida, tivesse o êxito material que a sua rara inteligência, os seus conhecimentos enciclopédicos, o seu amor ao trabalho e a sua extrema honradez lhe auguravam.

Sob uma aparência enganadoramente rígida, era uma pessoa extremamente sensível: era frequente chorar como uma Madalena na leitura dos seus romances, nas novelas radiofónicas, nos dramas do cinema.

Nutria profunda afeição pela Natureza: lembro-me de termos em casa ratinhos da Índia e, um belo dia que o fui visitar ao Tramagal (onde acompanhava as obras de ampliação de uma Fábrica ali existente), pediu-me que estivesse bem calado durante o almoço, pois esperava um “amigo”:
A páginas tantas, aproximou-se de nós um pequeno rato do campo, que, posto de pé nas patinhas traseiras, esperou pacientemente que o sereno Francisco lhe entregasse, como vinha sendo habitual, o almoço.

Não teve vida fácil: trabalhava arduamente  e, cumprido o horário de trabalho, ia todos os dias esperar a Mulher que, trabalhando na Rua Elias Garcia, em Lisboa, raramente saía da casa dos seus patrões antes das 22H00.

Teve alguns “episódios” com as mulheres, que, no final de sábado, o embebedavam e lhe sacavam todo o dinheiro do salário,mas depressa arrepiou caminho: todos os fins-de-semana, fazia questão de nunca abrir o envelope com o salário, entregando-o, impecavelmente fechado, à minha Mãe.

Amava por igual todos os seus pelo menos 14 Filhos, embora as minhas Irmãs, de vez em quando, afirmassem que, de entre todos os Filhos, aqueles de que ele mais gostava eram a Leontina e o António.

Era muito estimado por toda a Vizinhança dos Bairros de Lisboa onde vivemos: nunca dizia não a quem lhe pedisse para lhe escrever uma carta ou para colher do seu quintal (e lhes dar) uns alfaces, uns tomates, umas couves ou um ramo de salsa.

Nos últimos anos da sua vida, sustentava longas conversas com os Padres Capuchinhos, que se deliciavam com a sua vasta erudição de fervoroso autodidata.

Em dia de má sina, telefonou-me para o Banco a minha irmã Luísa, comunicando que o Pai fora internado no Hospital dos Capuchos, em Lisboa.

Deixei logo tudo o que estava a fazer, vesti o casaco e meti-me num táxi:

Francisco Bentinho estava deitado na cama, mal respirava, tendo ao seu lado a minha Mãe e duas simpáticas Senhoras das relações de ambos.

Faleceu pouco depois, aos 71 anos de idade; o cadáver foi enterrado no Hospital do Alto de São João, em Lisboa, em campa rasa, rodeado da Mulher e dos Filhos.

Ainda hoje tenho imensa saudade sua, meu Pai.

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16.04.20

ATROPELAMENTO MORTAL


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ATROPELAMENTO MORTAL

 

Os meus Pais, no pós Grande-Guerra, decidiram abalar de Santiago do Cacém e rumar a Lisboa.

Teria eu, naquela altura, 3 ou 4 anos de idade.

A minha Mãe terá lá voltado seguramente várias vezes depois disso, mas não tenho qualquer memória disso.

Conto isto para significar, em poucas palavras, que, infelizmente, não tenho a mínima lembrança dos meus Avós Maternos.

O pouco que sei é apenas o resultado dos relatos da minha Mãe, que me falava muitas vezes dos Pais dela.

A minha Mãe adorava o Pai dela (meu Avô Materno), por quem nutria uma admiração quase sem limites.

Era pequenino de corpo mas enorme de espírito.

Foi co-proprietário de dois talhos em Santiago do Cacém e, segundo a minha Mãe, era chamado para tratar o gado doente.

Não era veterinário, mas, pelos vistos, seria um autodidata, experimentado no tratamento dos animais.

Parece que gostava muito de letras e que terá mesmo escrito vários artigos para o jornal da localidade: ando há anos a pensar ir a Santiago bisbilhotar a Biblioteca local e ver se encontro lá algo dele.

Quanto à minha Avó Materna, presumo que se terá empenhado na educação da minha Mãe, pois esta, sendo menina da Vila, sabia costurar, tricotar, cozinhar, enfim, sabia tudo o que necessário era, naqueles recuados tempos, para uma excelente dona de casa.

Por outro lado, nos longos serões alentejanos, a minha Mãe ouviu e fixou muitas histórias, lendas e ditos que circulavam, de boa em boca, desde tempos imemoriais, entre todas aquelas honestas criaturas.

Por isso, nos serões de Lisboa, à sombra das árvores de fruta do quintal, no verão, ou, no inverno, à roda da lareira, a minha Mãe desfiava-nos, a mim e ao meu irmão Jacinto, as histórias de encantar, envolvendo quase sempre príncipes e princesas, as histórias das almas de outro mundo, quase sempre arrepiantes, e tudo o mais que, na sua juventude, colhera junto das simpáticas almas alentejanas da Vila (hoje cidade) de Santiago do Cacém.

Há anos, fui com a Mulher e os Filhos a Santiago do Cacém, ao casamento de um dos nossos Primos.

Ficámos alojados em casa de duas simpáticas senhoras Idosas, que, tendo vivido perto desde sempre com a minha Avó Materna, me deram, pela primeira vez, uma ideia de como era ela: Viraram-se para a minha Filha Leonor Maria e, encantadas, não se fartaram de garantir que esta minha Filha era exactamente como a minha referida Avó.

Fiquei, assim, com um bosquejo de como seria esta minha Avó Materna.

Do meu Avô Materno guardo uma fotografia que lhe tiraram, já no ocaso da vida, de pé, de bengala no braço dobrado, chapéu na cabeça e barba comprida: era, de facto, pequenino de corpo.

Morreu, vítima de doença, no Hospital da Vila.

Quanto à minha Avó Materna - contou-me a minha Mãe -, sendo surda, morreu ao atravessar uma das ruas da Vila (hoje Cidade), atropelada por uma carroça que por ali circulava.

Os restos mortais de ambos repousam no Castelo da Vila, em cujo interior está o cemitério concelhio.

Tenho, ainda hoje, uma pena imensa de não os ter conhecido.

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16.04.20

MÁSCARAS MUNICIPAIS CONTRA A PANDEMIA


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MÁSCARAS CONTRA A PANDEMIA

A Câmara Municipal de Mafra despendeu a quantia de quinhentos mil euros (Euros 500.000,00) na compra de máscaras, destinadas aos seus Munícipes.

A distribuição gratuita faz-se, além do mais, através dos Carteiros.

Ora, esta manhã, a minha Mulher, ao sair para despejar o lixo, encontrou na caixa do correio um embrulho em plástico, contendo 8 máscaras, oferta do Município.

No interior do embrulho estava ainda um folheto, contendo várias informações preciosas, a saber:

- Medidas gerais – Utilização das máscaras
- Lavagem das mãos

- Ajudar – Apoio alimentar, através da emissão de vales
- Acesso gratuito a medicamentos
- Isenção do pagamento dos tarifários de água, saneamento e resíduos
- “Se não puder sair, vamos por si … ao supermercado ou à farmácia”
- A linha que nos une – Apoio psicológico.

Tenho o grato prazer, enquanto Munícipe do concelho de Mafra, de tornar público estas excelentes

 

 

14.04.20

AMIGO CARLOS


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MEU AMIGO CARLOS


Neste inesperado período da minha vida, limitado de movimentos mas ilimitado de pensamentos e de recordações, vêm-me à memória imensos e gratos factos do meu passado, que tenho o grato prazer de agora recordar.

Talvez seja, afinal, uma espécie de consoladora meditação, desfiada ao som dos nossos mais consagrados poetas/autores/cantadores, que aqui tranquilamente desfruto, no meu telemóvel e através do Youtube.

Recordo, por exemplo, os belos períodos de tempo passados na Difusora Bíblica, Editora dos Padres Missionários Capuchinhos, em Lisboa, enquanto Administrador por eles nomeado, nos já longínquos anos 60.

Convidei, para me acompanhar no exercício das múltiplas tarefas da conhecida Editora, alguns dos meus melhores Amigos, todos eles militantes da Juventude Operária Católica.

Lembro a inimitável Odilia, cuja voz possante e bela iluminava as celebrações litúrgicas na capela do Bairro da Boavista.

Realço também a sua formosa irmã Anatilde, de uma tranquilidade deslumbrante, que sempre me surpreendia pela sua inocente candura e absoluta calma.

Não esqueço, neste breve bosquejo, a ternurenta Matilde, simples e linda, que os meus Pais adoravam e cuja inesquecível Tia – que a criou – sempre me recebeu em sua casa com franca hospitalidade.

Nesta pequena equipa, amiga e solidária, sobressaía, pela sua incansável vontade de ser sempre prestável, o inimitável Carlos, de lealdade a toda a prova, de simplicidade desarmante, de permanente disponibilidade para qualquer trabalho, por mais penoso que fosse.

O facto de eu ter no entretanto casado e de nos ter nascido o primeiro Filho não permitiu que lá continuasse, porque não estava inscrito na Caixa de Previdência respectiva.

A vida deu  muitas voltas: deixei a casa em Benfica e fui viver para Queluz e depois para Penafiel

Nunca mais vi o meu amigo Carlos.

Alguém me disse, há anos atrás, que o Carlos falecera: ainda hoje recordo, com muita saudade, a sua permanente boa disposição, cigarro aceso quase permanentemente na boca e braços sempre prontos para a execução das múltiplas tarefas do dia-a-dia.

Também não voltei a ver a Odília, nem a Anatilde, nem a Matilde, nem a Isabel.

Sei que elas estão bem: de vez em quando trocamos mensagens pela internet.

São, todos eles, pessoas que eu guardo para sempre neste meu coração.
Descansa em paz, amigo Carlos.

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