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SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

21.01.21

ABENÇOADA VARANDA


simplesmente...

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O novo coronavirus galopa freneticamente por tudo o que é sítio.

 

As autoridades sanitárias, alarmadas, saem a terreiro,

 

Recomendando mais e maior confinamento.

 

Não parece haver, por ora, outra maneira de suster a virulenta galopada.

 

Fico-me, pois, aqui por casa.

 

Regresso à situação de Março passado.

 

Valem-me, mais uma vez, nesta inesperada circunstância, as generosas varandas  da minha casa.

 

Por elas, deambulo, de ponta a ponta, absorvendo os ares puros desta abençoada terra.

 

Vou passeando os ollhares pelas nuvens carregadas de água,

 

Pela horta abandonada, onde vicejam os arbustos espontâneos,

 

Pelos ruidosos passarinhos, que me procuram em busca das migalhas de pão que lhes ofereço,

 

Pelos gatos da vizinhaça, que por aqui deslizam, lentos e felíneos, à caça dos ratos distraídos.

 

Enfim, uma existência tranquila e simples, quase medieval.

 

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(A horta vizinha)

 

 

 

16.01.21

A HIPER-CONDECORADA EMBAIXADORA DE PORTUGAL


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ANA GOMES (Ana Maria Rosa Martins Gomes) nasceu em 1954 e ingressou na Faculdade de Direito em 1972 (precisamente o mesmo ano lectivo em que eu próprio, embora alguns anos mais velho, também ingressei na mesma Faculdade.

 

Curiosamente, ela concluíu o Curso de Direito em 1979 e eu também concluí o meu em Janeiro de 1980.

 

Ela militou activamente no MRPP; eu assisti a algumas reuniões do Partido na Faculdade, mas nunca me inscrevi nele.

 

Porém, sendo ainda jovem, participei activamente nas Reuniões Gerais de Alunos (RGAs), nas Assembleias de Trabalhadores na CGD e cheguei a ser Delegado Sindical em Penafiel.

 

Terminados os referidos Cursos, esta minha Colega ingressou na Actividade Diplomática, ao passo que eu, sendo empregado da CGD, optei por fazer o estágio na Ordem dos Advogados, desempenhar funções de Jurista na CGD e, com escritório em Lisboa, exercer a Advocacia em regime de profissão liberal.

 

Não obstante o exposto e embora eu frequentasse assiduamente as aulas e  tenha de certa forma convivido, na Faculdade,  com o dr. Durão Barroso, não me recordo da senhora dra. Ana Gomes daquele altura, com excepção de um fugaz encontro de Colegas de Curso, promovido por Colegas nossos.

 

Provavelmente, a senhora dra. Ana Gomes frequentava as aulas durante o dia, ao passo que eu, desde o ano de 1974, sempre as frequentei no horário pós-laboral, ou seja, à noite.

 

É interessante revelar que, afinal, somos os dois, além de Colegas de Curso, camaradas no mesmo Partido Socialista: eu ingressei no Partido no ano de 1980 e ela inscreveu-se no ano de 2002.

 

Desenvolvi alguma actividade partidária na Secção da Damaia-Amadora, mas, não obstante ter recebido diversos convites, declinei-os, quer por falta de tempo, quer pela necessidade de dar o meu apoio à minha Mulher e aos meus quatro Filhos.

 

Dito isto, quero deixar registado que, embora de longe, venho acompanhando, com muita admiração e rigoroso respeito, a actividade pública desta minha ilustre Colega e Camarada, quer na área diplomática, quer na União Europeia.

 

E não sou só eu a rejubilar-me com o excelente trabalho da senhora dra. Ana Gomes: um pouco por todo o mundo, esta corajosa senhora vem acumulando imensas e muito valiosas concedorações, em paízes tão diversos como, por exemplo, Portugal, Hungria, Grécia, Itália, Luxemburgo, Congo, Áustria, Bélgica, Malta, Dinamarca, Islândia, Grã-Bretanha, Irlanda, Egipto e Timor-Leste.

 

Incompreensívelmente, os actuais Dirigentes do Partido Socialista negaram o apoio institucional a esta ilustre Camarada na sua corrida para a Presidência da República, assim gorando as legítimas expectativas de muitos Eleitores.

 

Em minha opinão, é pena.

 

Ficará na história do Partido Socialista esta estranha nódoa, para desgosto de muitos Militantes.

 

Parabéns, ilustre Embaixadora, pela sua exemplar coragem!

 

 

 

 

 

 

15.01.21

A GUERREIRA LUSITANA


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MARISA MATIAS (Maria Isabel dos Santos Matias) nasceu em 1976 e começou a trabalhar aos 16 anos de idade, para poder prosseguir os estudos e ajudar a família.

 

Nascida numa aldeia da Província, ia a pé para a escola primária e, nos intervalos escolares, ajudava os pais na agricultura e era pastora.

 

Enquanto estudava, trabalhou por conta de outrém, ora lavando pratos, ora servindo às mesas, ora trabalhando numa editora, ora dando aulas.

 

Licenciou-se em Sociologia  e, mais tarde,  doutorou-se, com a tese "A Natureza gosta de nós?"

 

É Deputada na União Europeia, onde vem desenvolvendo trabalho árduo e de muita valia, em áreas diversas: medicamentos falsificados, doença de Alzheimer, cancro, sida, diabetes, desigualdade de género, dignificação dos cuidadores informais.

 

Reconhecendo publicamente a mais valia de todo o seu enérgico labor, a União Europeia elegeu-a "Deputada Europeia do Ano na área da Saúde" e, também, "Campeã pelo Clima" e "Presidente do Inter-Grupo de Combate à Pobreza".

 

Das muitas declarações que vem fazendo, elejo esta, que me impressionou:

 

"Força não me falta para lutar por este País"

 

É quase uma autêntica Joana d'Arc portuguesa esta ilustre Deputada Europeia,

 

que "pinta os lábios".

 

Bem-aventurados sejam os teus lábios pintados, querida senhora doutora!

 

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(Joana d'Arc, Heroína e Santa)

 

13.01.21

O CAUSÍDICO INESPERADO


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Licenciou-se em Direito na Faculdade Católica do Porto.

 

É advogado (mas não se mete em "negócios").

 

Este meu distinto Colega está a ser uma autêntica revelação para os Eleitores portugueses.

 

É calmo, educado, sensato, firme, sereno e, sobretudo, tem ideias.

 

Ora, no seio de uma classe política cada vez mais idiota (no sentido de sem ideias), este jovem Causídico do Porto veio mostrar-nos a todos que, afinal, em Portugal ainda há gente que pensa.

 

Podemos naturalmente discordar do liberalismo que convictamente apregoa, mas, analisando as suas propostas, rapidamente concluímos que muitas delas não são apenas necessárias a este País, mas são verdadeiramente urgentes.

 

Pena é que, neste velho País, pouca (ou quase nenhuma) da gente que pulula na classe política leia e medite naquilo que verdadeiramente nos interessa.

 

A impressão que tenho (daquilo que venho presenciando de há muitas décadas a esta parte) é que alguma da gente que vai para a política tem um único e fóbico objectivo: encher os bolsos, fazendo carreira.

 

Ora, assim não vamos longe.

 

 

 

 

12.01.21

O MELHOR CALCETEIRO DO MUNDO


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Vitorino Francisco da Rocha e Silva (vulgo, Tino de Rans) é, além de calceteiro e ex-presidente da Junta de Freguesia de Rans, militante do Partido Socialista.

Também eu sou, desde os fins dos anos 70, militante do mesmo Partido Socialista.

Mas não tenho a notoriedade dele.

O Tino nasceu quando eu, empregado na Caixa Geral de Depósitos, desempenhava funções na Agência de Penafiel.

Simpatizo com o sr. Vitorino, também porque ele é conterrâneo da minha filha Carla Sofia, que nasceu em Penafiel em 1972, um ano depois dele.

Gostámos muito de viver em Penafiel, para onde fomos desde Lisboa numa "aventura" típica das nossas jovens idades.

Éramos, na verdade, um casal muito novo, mas já com três filhos (o Pedro Miguel, a Ana Cristina e a Carla Sofia).

A população da cidade de Penafiel acolheu-nos com uma ternura imensa e lá vivemos até que, na Faculdade de Direito de Lisboa, começaram as aulas presenciais em regime nocturno.

Fui então, a pedido meu, colocado, em Maio de 1974, na Agência de Benfica da CGD e, a partir daí, passei a frequentar assiduamente as aulas de Direito, que começavam às 19H00 e acabavam às 23H00.

Voltando ao nosso Tino de Rans, emocionou-me saber que ele, sendo militar, decidiu "meter-se" na política para colocar no mapa a Freguesia de Rans, assim cumprindo o desejo do seu irmão mais velho, no entretanto falecido ainda muito novo.

É o nosso Tino de Rans uma pessoa simples, cordial, educada, respeitadora: reúne, em meu entender, as qualidades morais e cívicas próprias do cidadão português.

Por isso, muita gente vota nele: admiram nele a espontaneidade rural, a simplicidade honesta, a coragem lusitana, o desapego quase franciscano.

Talvez nunca venha a ser Presidente da República, mas deixa-nos o exemplo ímpar de um cidadão exemplar que uma vez sonhou ser "o melhor calceteiro do mundo".

Seja como for, Vitorino, Você realizou o sonho do seu falecido Irmão: pôs Rans e Penafiel no mapa!

Bem haja, Tino de Rans, pela inesquecível frescura de espírito com que enriquece as eleições para a Presidência da República.

E ... continue, com o seu entusiasmante desassombro, a debitar para todos nós as suas alegorias e parábolas.

Afinal, "vox populi, vox Dei"

 

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(Rans, Penafiel)

 

08.01.21

O MEU BAIRRO


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Era um bairro camarário, destinado às pessoas cujas casas eram demolidas por força das obras que fizeram Lisboa crescer.

As ruas tinham, todas elas, denominações de flores:  das dálias, das hortensias, das açucenas, das rosas, das alcachofras...

Fomos viver para a rua das açucenas e, quando a minha irmã Isabel nasceu, mudámos para a rua das alcachofras, para uma casa de tipo 3.

As ruas estavam sempre primorosamente limpas e os jardins impecáveis em todas as estações do ano.

As rendas eram pagas directamente ao fiscal do bairro, que se ocupava de tudo administrar com zelo e dligência, assessorado pelo respectivo ajudante.

Os "almeidas" todos os dias limpavam os espaços públicos e os jardineiros tratavam com escrúpulo os jardins.

A escola primária tinha dois edifícios, um para os rapazes, outro para as raparigas, ambos equipados  com cantinas e espaços de recreio: a frequência escolar e os almoços eram gratuitos.

As crianças eram acolhidas no infantário, cuja frequência também era gratuita.

A educação religiosa e cívica era garantida pelos Frades Franciscanos, que todos os domingos celebravam missa na capela respectiva.

A segurança e a ordem eram asseguradas por uma esquadra da psp, cujos efectivos todos os dias patrulhavam as ruas do bairro.

A saúde física era vigiada, gratuitamente, pelos médicos do Centro Social, sempre disponíveis.

As famílias eram visitadas pelas assistentes sociais que se ocupavam de garantir, com visitas aos domicílios e conferências familiares, o bem-estar dos habitantes do bairro., sem cobrar fosse o que fosse pela sua prestação de serviços.

Quando alguém falecia, o Bairro realizava peditórios entre os habitantes para custear as despesas do funeral.

Quanto algun mancebo era chamado a cumprir o serviço militar obrigatório, o Bairro solidarizava-se com a família, organizando peditórios que lhe facilitavam a vida na tropa.

A renda mensal era de baixíssimo valor; a água e a electricidade eram gratuitos.

A roupa era lavada nos tanques colectivos e estendida a secar nos espaços a isso destinados; era proibido estender roupa nos quintais das casas.

Era proibido alimentar animais nos quintais, pelo que em nenhum lado se viam galinhas ou coelhos.

As pessoas eram solidárias, honestas e educadas.

Todo aquele que violasse as regras era, em primeiro lugar, admoestado pelos fiscais ou pelos agentes da psp; se reincidisse no mau comportamento, era despejado, sem apelo nem agravo.

O Bairro foi demolido para dar lugar ao Hospital de Santa Maria e áreas a ele adjacentes.

Os seus habitantes foram coercivamente distribuídos por outros bairros sociais de Lisboa.

 

 

 

 

 

03.01.21

RECORDAÇÕES


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Os meus Pais, em 1947, abalaram de Santiago do Cacém e vieram viver para Lisboa.

 

Viemos com eles eu  (António, de 4 anos de idade) e o meu irmão ( Jacinto, de 2 anos de idade).

 

Por isso, deixámos ambos de conviver com os nossos Avós e restante Família.

 

Mas recordo ainda parte da meninice vivida na quinta dos meus Avós Paternos, situada na estrada que liga Santiago a Sines:

 

a perseguição quase diária aos galináceos,

a prova dos figos da índia (que amadureciam nos valados),

os passeios na carroça puxada por uma mula,

as idas à praia de Sines,

os pequenos almoços de sopas de café preparadas pelo Avô,

 os passarinhos com os seus ninhos no alpendre da casa de família,

 as tropelias das minhas irmãs mais velhas,

a gulodice no saboreio do maná que, um belo dia, nos caíu do céu,

as conchas que soavam a mar,

os paus de fio que anunciavam a passagem do comboio…

 

Já em Lisboa, a Senhora Dona Eugénia ( que a minha Mãe conhecia da terra) , ter-me-á perguntado o seguinte:

 

- Toninho, gostas mais de Santiago ou aqui de Lisboa?

- Gosto mais de Santiago – terei eu respondido.

- Porquê?!... – terá insistido a venerável Senhora.

- Porque em Santiago tinha a casa – respondi-lhe eu.

 

Não sei em que situação vivíamos em Lisboa, mas, pelos vistos, não teríamos ainda casa para habitar.

 

A sensível Senhora ficou impressionada com a minha resposta.

 

De imediato telefonou para o irmão, que era na altura o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

 

Dias depois, estávamos todos alojados numa casa camarária, com sala comum, dois quartos, casa de banho e jardim anexo.

 

E lá ficámos todos a viver até o Bairro ser demolido, para dar lugar ao Hospital de Santa Maria.