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SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

08.01.21

O MEU BAIRRO


simplesmente...

quinta da calçada infantario 2.jpg

Era um bairro camarário, destinado às pessoas cujas casas eram demolidas por força das obras que fizeram Lisboa crescer.

As ruas tinham, todas elas, denominações de flores:  das dálias, das hortensias, das açucenas, das rosas, das alcachofras...

Fomos viver para a rua das açucenas e, quando a minha irmã Isabel nasceu, mudámos para a rua das alcachofras, para uma casa de tipo 3.

As ruas estavam sempre primorosamente limpas e os jardins impecáveis em todas as estações do ano.

As rendas eram pagas directamente ao fiscal do bairro, que se ocupava de tudo administrar com zelo e dligência, assessorado pelo respectivo ajudante.

Os "almeidas" todos os dias limpavam os espaços públicos e os jardineiros tratavam com escrúpulo os jardins.

A escola primária tinha dois edifícios, um para os rapazes, outro para as raparigas, ambos equipados  com cantinas e espaços de recreio: a frequência escolar e os almoços eram gratuitos.

As crianças eram acolhidas no infantário, cuja frequência também era gratuita.

A educação religiosa e cívica era garantida pelos Frades Franciscanos, que todos os domingos celebravam missa na capela respectiva.

A segurança e a ordem eram asseguradas por uma esquadra da psp, cujos efectivos todos os dias patrulhavam as ruas do bairro.

A saúde física era vigiada, gratuitamente, pelos médicos do Centro Social, sempre disponíveis.

As famílias eram visitadas pelas assistentes sociais que se ocupavam de garantir, com visitas aos domicílios e conferências familiares, o bem-estar dos habitantes do bairro., sem cobrar fosse o que fosse pela sua prestação de serviços.

Quando alguém falecia, o Bairro realizava peditórios entre os habitantes para custear as despesas do funeral.

Quanto algun mancebo era chamado a cumprir o serviço militar obrigatório, o Bairro solidarizava-se com a família, organizando peditórios que lhe facilitavam a vida na tropa.

A renda mensal era de baixíssimo valor; a água e a electricidade eram gratuitos.

A roupa era lavada nos tanques colectivos e estendida a secar nos espaços a isso destinados; era proibido estender roupa nos quintais das casas.

Era proibido alimentar animais nos quintais, pelo que em nenhum lado se viam galinhas ou coelhos.

As pessoas eram solidárias, honestas e educadas.

Todo aquele que violasse as regras era, em primeiro lugar, admoestado pelos fiscais ou pelos agentes da psp; se reincidisse no mau comportamento, era despejado, sem apelo nem agravo.

O Bairro foi demolido para dar lugar ao Hospital de Santa Maria e áreas a ele adjacentes.

Os seus habitantes foram coercivamente distribuídos por outros bairros sociais de Lisboa.

 

 

 

 

 

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