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SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

SIMPLESMENTE AVÔ

Pedaços do dia-a-dia

25.09.20

A FUGA DA ROTINA


simplesmente...

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Desde sempre detesto a rotina.

 

Aliás, despedi-me de empregos – alguns bem pagos – porque eram rotineiros.

 

Lembro-me, a propósito, da minha primeira colocação na Caixa Geral de Depósitos, na Rua do Ouro, em Lisboa, muito (mas mesmo muito), antes do 25 de Abril de 1974.

 

O trabalho diário era um autêntico suplício:  fui colocado na Secção de Controle, onde todos os dias chegavam os documentos da véspera: papéis brancos, depósitos; papéis verdes, levantamentos.

 

A tarefa diária era simplesmente esta: lançar a crédito os papéis brancos e lançar a débito os papéis verdes, nas fichas dos Clientes, que nos eram postas junto às barulhentas máquinas de contabilidade pelos Contínuos  em serviço na Empresa.

 

Passado um mês naquela árdual rotina, quase dei em doido.

 

Contaram-me, a propósito, que, numa bela tarde de verão, um dos Empregados, farto daquele suplício,  pegou em todos os papelinhos que lhe estavam distribuídos, aproximou-se da janela aberta e atirou tudo para a Rua do Ouro.

 

Centenas de empregados correram de imediato para o exterior e, saracoteando entre o trânsito, trataram de recuperar, a muito custo, toda aquela papelada.

 

Não me contaram o que fizeram àquele “corajoso” empregado, mas admito que seguramente estaria a precisar de acompanhamento médico

 

Quanto a mim,  desloquei-me espontaneamente à Direcção de Pessoal da Caixa Geral de Depósitos e,  recebido com muita boa vontade e extrema delicadeza,  abalei  para a primeira vaga que me ofereceram, numa Agência muito simpática, em Penafiel.

 

Vem isto a propósito do meu desapego  à rotina.

 

Às vezes, estas manias têm as suas consequência, em regra pouco agradáveis.

 

Conto o que ontem se passou em poucas palavras, sem revelar  o que deve ficar sob reserva.

 

Minha Mulher – pessoa atenta e desembaraçada – encontrou, por mero acaso, um novo estabelecimento de cabeleireiro.

 

- António, tens de cortar o cabelo. Aproveita e vai lá experimentar, recomedou-me ela.

 

Não fui de modas: no dia seguinte, lá estava eu no novo estabelecimento, para o corte do cabelo.

 

O Barbeiro era novo, simpático, humilde e muito educado.

 

- Quer cortar à máquina ou à tesoura?m -  perguntou.

 

- À tesoura, se faz favor - respondi.

 

Sentei-me e, de forma algo desajeitada, o jovem Barbeiro começou nas tesouradas da praxe, umas aqui, outras ali, enquanto íamos conversando.

 

A páginas tantas, olho para o espelho e fico alagado em suores frios.

 

Enquanto parte da cabeça ainda tinha algum cabelo, noutra parte já se  via a pele.

 

Claro que o jovem Barbeiro tentou desesperadamente corrigir o erro notório, mas, quanto mais cortava, pior ficava.

 

Acabou por me confessar, muito honestamente, que nunca tinha cortado o cabelo à tesoura.

 

Voltei lá no dia seguinte de manhã, para que o Colega dele tentasse remediar no que pudesse.

 

Fez o que  pôde.

 

Aconselhou-me a voltar lá daqui a duas semanas, para continuar a emendar o desastrado corte de cabelo  do inexperiente Colega.

 

Aconselhei o jovem e educado Barbeiro a experimentar cortar o cabelo a jovens da localidade, a título inteiramente gratuito, para ir ganhando experiência.